quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Elegia quase uma ode

...
Que hei de fazer de mim que sofro tudo
Anjo e demônio, angústias a alegrias
Que peco contra mim e contra Deus!
às vezes me parece que me olhando
Ele dirá, do seu celeste abrigo:
Fui cruel por demais com esse menino...
No entanto, que outro olhar de piedade
Curará neste mundo as minhas chagas?
Sou fraco e forte, venço a vida: breve
Perco tudo; breve, não posso mais...
Oh, natureza humana, que desgraça!
Se soubesses que força, que loucura
São todos os teus gestos de pureza
Contra uma carne tão alucinada!
Se soubesses o impulso que te impele
Nestas quatro paredes de minha alma
Nem sei o que seria deste pobre
Que te arrasta sem dar um só gemido!
É muito triste se sofrer tão moço
Sabendo que não há nenhum remédio
E se tendo que ver a cada instante
Que é assim mesmo, que mais tarde passa
Que sorrir é questão de paciência
E que a aventura é que governa a vida.
Oh ideal misérrimo, te quero:
Sentir-me apenas homem e não poeta!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Aninha e Suas Pedras

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Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras
E constrindo novos poemas.

Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doce.
                                                     Recomeça.

Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
E na memória das gerações que hão de vir.

Esta fome é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que tem sede.

Cora Coralina

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Canção

                               Allen Ginsberg

O peso do mundo
                é o amor.
Sob o fardo
                da solidão,
sob o fardo
                da insatisfação

                o peso
o peso que carregamos
                é o amor.

Quem poderia negá-lo?
                Em sonhos
Nos toca
                o corpo,
em pensamentos
                constrói
um milagre,
                na imaginação
aflige-se
                até tornar-se
humano –

sai para fora do coração
                ardendo de pureza –
pois o fardo da vida
                é o amor.

mas nós carregamos o peso
                cansados
e assim temos que descansar nos braços
                do amor.

Nenhum descanso
                Sem amor,
Nenhum sono
                Sem sonhos
De amor –
                Quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
                ou por máquinas,
o último desejo
                é o amor
- não pode ser amargo
                não pode ser negado
não pode ser contido
                quando negado:

o peso é demasiado

- deve dar-se
sem nada de volta
                assim como o pensamento
é dado
                na solidão
em toda excelência
                do seu excesso.

Os corpos quentes
                brilham juntos
na escuridão,
                a mão se move
para o centro
                da carne,
a pele treme
                na felicidade
e a alma sobe
 feliz até o olho –

sim, sim,
                é isso que
eu queria,
                eu sempre quis,
eu sempre quis
                voltar
ao corpo
                em que nasci.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

POEMA DE NATAL

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio

Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte -
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje à noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinícius de Moraes

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A música Das almas

Na manhã infinita as nuvens surgiram como a loucura numa alma
E o vento como o instinto desceu os braços das árvores que estrangularam a terra...
Depois veio a claridade, os grandes céus, a paz dos campos...
Mas nos caminhos todos choravam com os rostos levados para o alto
Porque a vida tinha misteriosamente passado na tormenta.

Vinícius de Moraes

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Provocação de Lord Harry

" Um grande poeta, um verdadeiro grande poeta, é a criatura mais sem poesia de todas. Mas os poetas inferiores são de fato fascinantes. Quanto piores forem as suas rimas, mais pitorescos eles serão.[...]Ele vive a poesia que não consegue escrever. Os outros escrevem a poesia que não ousam empreender." 

O Retrato de Dorian Gray
Oscar Wilde

domingo, 27 de novembro de 2011

A uma mulher

Quando a madrugada entrou, eu estendi o meu peito nu sobre o teu peito
Estavas trêmula e teu rosto pálido e tuas mãos frias
E a angústia do regresso morava já nos teus olhos.
Tive piedade do teu destino que era morrer no meu destino
Quis afastar por um segundo de ti o fardo da carne
Quis beijar-te num vago carinho agradecido.
Mas quando meus lábios tocaram teus lábios
Eu compreendi que a morte já estava no teu corpo
E que era preciso fugir para não perder o único instante
Em que foste realmente a ausência de sofrimento
Em que realmente foste a serenidade.

                                   Vinícius de Moraes